Atrás de ombros

•April 9, 2010 • Leave a Comment

E onde foi que nos perdemos nessa cidade escura, repleta de espaços e escassa de nós. Por onde correm teus olhos assustados com o mundo, guardando o silêncio de nossas conversas. As paradas em que esperávamos o trem. As voltas daquelas viagens nunca tidas. A estação que abraçava os apesares de nossas tamanhas divergências. Sinuosos encontros. Quando nos bebíamos pelos olhos. E pelo mundo um amontoado de lixos de ódios cuspidos de nossas covardias. Tão tolas. Tão tolos ficamos, de ombros calados. De nós acossados. De sós revestidos. Onde.

•February 5, 2010 • Leave a Comment

O sangue derrama todos os dias de veias cansadas e abertas como flor.

eu sei que sempre insisto nisso

•December 21, 2009 • Leave a Comment

eu sei que sempre insisto nisso mas é que
eu gosto tanto do rastro que me faz sua letra
e penso
.e quero
..e desejo ameaçadoramente que ela seja mais e mais língua e que eu possa correr os olhos como corre os olhos por um livro de caio
e então mais perto
e então mais próxima
……e então mais coincidentes no nosso instante que
apesar do vento
…………………………pousa.

Trecho último à pintora

•November 4, 2009 • 1 Comment

Ao som de “Ao longe o mar”

Há um lugar, um porto calmo talvez para nós abrigo onde teus olhos poderiam ver um futuro maior e que porventura ainda não esteja perdido já que o temor que habita nosso presente nos afasta todos os dias de lá, nos afasta, e sei que não faz sentido mas o que me resta é a palavra que une uma manhã melhor porque vejo da névoa as promessas anteriores a sairem sempre que tão perto do mar e fico aqui trêmulo a olhar o porto e teu futuro meu ainda incerto a cantar vontades que não sei de quem se um dia sequer minhas ou tuas pelo menos persiste a névoa e assim vejo-a despertar de palavras de ontem e promessas de amanhã e não mais abraçar porque não existe mais em mim em ti somente a nódoa da saudade e o tempo atroz a passar por não te restar senão o mar ao longe e parada deixar-te ficar.

Não há sequência em teus passos

•November 3, 2009 • Leave a Comment

Antes, bem antes de rasgar tua ausência em minha pele agora desfeita, antes eu podia ao menos seguir-te com meus olhos turvos e já gastos e então acompanhar teus movimentos claros, tuas palavras sem voz, os círculos cinzas feitos por tuas mãos no ar e que agora não mais alcanço, apenas os óculos escuros, os livros e a companhia súbita da tosse. Hoje eu percorro a mesma avenida da cidade onde antes nos perdíamos em horas néon, mas sob meus pés, incertos, as velocidades verdes vermelhas amarelas anunciam-me veloz o momento da partida.

nossos ombros

•November 2, 2009 • Leave a Comment

do que mais sinto falta talvez das nossas andanças o fôlego tropeçado e esquecido acuado na ponta dos móveis nós dois tais quais ombros dedilhando as esquinas do que mais sinto a falta quem sabe de nossas histórias interminavelmente cerzidas dos nossos olhos calibrados na ânsia do desconhecido na espera do próximo trem na escuta da tônica linha do que mais falta esse céu que nos tocava a tez a água a linha perseguida do tênue horizonte finito de nossas ideias procriadas a partir doutras e destas mãos pelos pés no trocadilho eriçado de nossos enganos de tuas palavras de meus outros caminhos de nosso encontro na ilusão do sentido.

sob o fora

•June 13, 2009 • Leave a Comment

Foi assim, não de outra forma, jamais poderia ter sido de outra forma que eu te vi pela última vez. Confundir tua pele com o limite cinza do meu olhar-te, sentir tua carne quase entre meus dentes afiados em ti, ver-ter tão próxima que eu.

Teu cheiro de ontem, ou de quando não sei, arranca meus olhos todos os dias, um pouco de cada vez.
A palavra não saída de teus lábios, meus lábios, invade minhas mãos e, perdido na cidade cujas ruas não têm nome, já não mais teu rosto, a perda irreparável de teus pés e dos lugares estranhos que somente nós dois alcançávamos.

Quero prender tua respiração, se ainda pudesse.
Quero tirar-te do interior deste dia pus.
Quero incendiar teus cabelos com a brasa lenta de meus cigarros baratos, em ti.
Por que ainda tuas costas despidas diante de meu peito ponta pulso aberto?